O que os sonhos pedem
Por Marcelina d’Andrade · Terapeuta Analítica de orientação junguiana, Hipnoterapeuta e Terapeuta Espiritual
O que significam os sonhos, segundo Jung?
Para Carl Gustav Jung, os sonhos são uma função natural da psique: o inconsciente a procurar equilíbrio, compensando aquilo que a vida desperta exagera ou ignora. Não são mensagens cifradas à espera de tradução por dicionário, porque o mesmo símbolo tem sentidos diferentes em pessoas diferentes. Interpretar um sonho é um trabalho artesanal, feito dentro da história de quem sonha — e a primeira pergunta útil não é o que o sonho significa, mas o que ele pede.
Há uma pergunta que quase toda a gente faz quando começa a prestar atenção aos sonhos: o que significa isto? É uma pergunta legítima, mas talvez não seja a primeira. Antes de perguntar o que um sonho significa, vale a pena perguntar o que ele pede.
O que são os sonhos, na leitura de Jung?
Jung compreendeu os sonhos como uma função natural da psique: o inconsciente a procurar equilíbrio, a compensar aquilo que a nossa vida consciente exagera ou ignora. Quem vive apenas na razão sonha com inundações. Quem nunca se zanga sonha com incêndios. O sonho não vem castigar: vem completar.
Esta ideia tem uma consequência prática importante: o sonho não é um aviso vindo de fora nem uma profecia. É a psique a falar consigo própria, na única língua que dispensa argumentos, a das imagens.
Porque é que nos esquecemos dos sonhos?
Não é falta de sonhos: toda a gente sonha várias vezes por noite. O que falha é a passagem para a memória desperta, que exige atenção nos primeiros minutos depois de acordar. Levantar de imediato, pegar no telemóvel ou começar a planear o dia apaga o sonho com uma eficácia notável.
Quem quer recordar sonhos costuma consegui-lo em poucas semanas, apenas por deixar papel ao lado da cama e por não se mexer nos primeiros instantes. A intenção formulada antes de dormir tem, curiosamente, mais efeito do que seria de esperar.
Porque é que um dicionário de símbolos não chega?
Por isso, um dicionário de símbolos ajuda pouco. A mesma serpente que assusta uma pessoa pode curar outra. O símbolo só ganha sentido dentro da vida de quem sonha: das suas memórias, dos seus medos, do momento que atravessa. Interpretar um sonho é sempre um trabalho artesanal, nunca uma consulta de catálogo.
O método que Jung propôs para contornar esta dificuldade chama-se amplificação: em vez de substituir a imagem por um significado fixo, rodeia-se a imagem de associações, as pessoais de quem sonhou, e depois as culturais, os mitos e as histórias onde essa imagem aparece. O sentido emerge do conjunto, não de uma correspondência.
O que dizem os sonhos que se repetem?
Um sonho que regressa costuma indicar uma questão que ainda não foi ouvida. A repetição não é falta de imaginação da psique: é insistência. Muitas vezes o sonho recorrente muda ligeiramente quando alguma coisa se move na vida desperta, e essa variação é a informação mais útil que ele traz.
Os pesadelos merecem a mesma leitura. São desagradáveis por serem sonhos que sobem o tom porque o recado não está a passar. Isso não os torna maus presságios; torna-os urgentes. Vale a pena distinguir, ainda assim, o pesadelo ocasional do sono repetidamente perturbado, que é matéria para acompanhamento médico e não para interpretação.
Como começar a trabalhar os próprios sonhos
Quatro gestos simples, antes de qualquer interpretação:
- Escrever o sonho ao acordar, sem o corrigir.
- Registar a emoção, mais do que o enredo.
- Perguntar: que parte de mim fala assim?
- Perguntar: onde é que, na minha vida desperta, sinto exatamente isto?
Com o tempo, os sonhos revelam padrões, insistências, uma direção.
Convém resistir à pressa de concluir. Um sonho anotado e deixado a repousar semanas costuma dizer mais do que um sonho interpretado no próprio dia, porque entretanto a vida oferece o contexto que faltava.
Porquê trabalhar sonhos em terapia?
Trabalhar sonhos num processo terapêutico é dar-lhes um interlocutor. Não para os traduzir de uma vez, mas para os escutar em conjunto, com método e com respeito. Os sonhos pedem pouco: atenção, memória e a coragem de levar a sério o que dizem.
A vantagem de os escutar acompanhada é sobretudo esta: sozinhos, tendemos a encaixar o sonho na história que já contamos sobre nós. É precisamente essa história que o sonho costuma vir corrigir.
Perguntas frequentes
Vale a pena usar um dicionário de símbolos dos sonhos?
Ajuda pouco. O mesmo símbolo tem sentidos diferentes consoante a pessoa: a serpente que assusta uma pode curar outra. O sentido nasce da vida de quem sonha, das suas memórias e do momento que atravessa, e não de uma tabela de correspondências fixas.
Como devo registar um sonho ao acordar?
Escreva-o sem o corrigir nem lhe dar lógica, e registe sobretudo a emoção, mais do que o enredo. É a emoção que costuma indicar de que parte da vida o sonho está a falar.
Preciso de sonhar todas as noites para trabalhar sonhos em terapia?
Não. Toda a gente sonha, ainda que nem sempre se recorde. Trabalha-se com o que houver: alguns sonhos, fragmentos, ou mesmo a ausência de recordação, que também diz alguma coisa.
Se este texto tocou nalguma coisa sua, podemos conversar.
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Marcelina d’ Andrade